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 Ana Theresa Borsari08/05/2006 

 Diretora de Marketing e Planejamento da Peugeot do Brasil
Texto: Rafaela Borges
Fotos: Divulgação

No ano passado, a diretoria de Marketing da Peugeot do Brasil ganhou um titular que foge de todos os padrões adotados pela montadora até então. A cadeira do francês Guillaume Couzy passou a ser ocupada por uma mulher, brasileira e jovem. É sobre os ombros de Ana Theresa Borsari, de 34 anos, que recaiu a responsabilidade pelas estratégias que a marca utilizará daqui para frente. E estratégia é uma das palavras que ela mais usa, e coloca em prática. No ano passado, a Peugeot ficou com a sétima posição no ranking nacional de vendas.

Entretanto, a montadora já abriu 2006 na quinta colocação do ranking de vendas, posição que manteve até o fechamento de abril. E isso significa muito, nada menos que o primeiro lugar entre as chamadas “new comers”, fabricantes que se instalaram no Brasil a partir do final da década passada. Segundo Ana Theresa, a conquista é fruto, principalmente, do lançamento do 206 com motor 1.4 bicombustível, que substitui o 1.0, mas mantendo o preço do popular. O objetivo da executiva também é bem claro: consolidar a posição de quinta maior montadora no Brasil.

Para isso, promete uma avalanche de lançamentos para o nosso mercado em 2006. No início deste mês, o 307 reestilizado chega às concessionárias. O resto, ela prefere não revelar, voltando a utilizar a palavra estratégia como justificativa para não divulgar seus planos. Ana Theresa Borsari recebeu a reportagem de Carsale na sede administrativa da Peugeot, no bairro de Interlagos, em São Paulo (SP). Comunicativa e sorridente, ela não vê o fato de ser mulher como um problema para o exercício de sua profissão, e sim a solução.

“Passei muito tempo no desenvolvimento da rede de concessionários, aprendendo a lidar com o mundo masculino. Além disso, tenho faro feminino”, afirma a executiva. Graduada em direito, Ana Theresa iniciou sua carreira no PROCON e entrou na Peugeot para montar o departamento de atendimento ao cliente. Sua carreira evoluiu na montadora até a diretoria de Marketing. No Viva-Voz, ela revela alguns planos da Peugeot, fala sobre a situação das fábricas do Brasil – “joint-venture” com a Citroën - e Argentina, analisa nosso mercado e conta qual será a atração da montadora no Salão do Automóvel de São Paulo, em outubro: uma supermáquina de tirar o fôlego.

Como começou sua carreira na Peugeot do Brasil?
AB – Eu sou advogada e fiz direito por ideologia; gostava muito do tema defesa do consumidor. Comecei minha carreira no PROCON (Fundação de Proteção e Defesa do Consumidor), onde fiquei por quase cinco anos. A Peugeot, quando veio para o Brasil, queria montar um departamento de atendimento. Eu recebi uma ligação de uma empresa de recrutamento terceirizada, e fui convidada para trabalhar na montadora francesa.

E como foi sua evolução dentro da montadora?
AB – Eu entrei na Peugeot para montar o departamento de atendimento ao cliente. A área foi se expandindo e passei a atuar no departamento de qualidade. Criamos uma área que se chamava Qualidade e Gestão da Relação com o Cliente. Depois, fui trabalhar na rede de concessionários, como diretora de desenvolvimento, e fiquei por lá quase quatro anos. Em 2005, assumi a diretoria de marketing.

Você é mulher, jovem e a primeira diretora de marketing brasileira na Peugeot. Em uma indústria predominantemente masculina, estes estigmas pesam?

AB – Eu sentia um peso dez anos atrás, mas agora isso já está meio superado. Passei muito tempo no desenvolvimento da rede, o que me ensinou a ter contato com o mundo masculino, dos empresários e dos concessionários. A mulher tem mais jogo de cintura, além de faro feminino para tomar as decisões. Então, esse fato torna as coisas mais positivas do que negativas. É assim que eu encaro. E ser brasileira é muito bom para a área de marketing, porque tenho na cabeça o que o consumidor nacional quer e pensa.

A Peugeot fechou 2005 na sétima posição do ranking e já começou 2006 em quinto. Qual a expectativa para o fechamento do ano?
AB – Nosso objetivo é aumentar o ritmo de crescimento do grupo PSA como um todo. Em 2005, só a marca Peugeot cresceu 25%, mas esperamos aumentar este índice. Imaginamos um aumento de vendas em torno de 28% a 30% para 2006, consolidando a quinta colocação no encerramento do ano.

O que será feito para garantir o crescimento?
AB – Por enquanto, o que posso dizer é que a Peugeot vai ter um ano muito rico, cheio de novidades. A projeção de crescimento será suportada por um plano de investimento em produtos muito interessante.

O valor destes investimentos pode ser divulgado?
AB – Ainda não, pois não foi autorizado pela matriz. Deveremos divulgá-lo nos próximos meses.

Serão quantos lançamentos até o final do ano?
AB – Vários. O primeiro foi o 206 com motorização 1.4 Flex. Houve uma explosão de demanda por esse carro, por isso começamos o ano com o pé direito.

A Toyota já anunciou que quer 10% do mercado até 2010, o que a colocaria na disputa com a Ford. O que a Peugeot espera conseguir no mercado nacional até o final da década?
AB – O que podemos anunciar é que, a médio prazo, queremos ser quinta maior montadora do país.

Iniciar 2006 na quinta posição é resultado de qual estratégia?
AB – O grande sucesso foi justamente o lançamento do 206 1.4 Flex. A Peugeot tomou uma decisão corajosa de sair do segmento de veículos 1.0 e centralizar seus esforços na motorização 1.4. Percebemos que era o que o brasileiro estava esperando: uma opção melhor, com mais potência e mesmo preço.

A Peugeot tem apenas dois modelos nacionais e um argentino. É possível manter a quinta posição no mercado com uma gama de três modelos?
AB – É difícil falar sobre isso, porque não posso contar quais serão nossos lançamentos. O que posso dizer é que, com os nossos planos para novos produtos, é bastante possível manter a quinta colocação.

A Peugeot vai ter condições de manter preço semelhante ao de modelos 1.0 para o 206 1.4? Ou foi só uma estratégia de lançamento?
AB – Não temos mais como fazer a correlação porque paramos de fabricar o 1.0. O que eu posso dizer é que o 206 1.4 Flex foi alinhado no preço do 1.0, e pretendemos manter esse posicionamento.

A fábrica argentina vai produzir também a versão sedã do 307?
AB – Por enquanto, a gente não pode falar nada de oficial, mas é certo que continuaremos nossos investimentos na Argentina.

A Peugeot acredita no crescimento do segmento de sedãs médios?
AB – Não é um segmento que está em grande expansão. Pelo contrário, os volumes da categoria estão estáveis, ou caindo, e, ao mesmo tempo, ele terá os maiores lançamentos do ano. Com a queda dos sedãs grandes, os médios herdaram sua clientela. Todo mundo está apostando porque a categoria ficou muito larga; há desde carros de entrada de gama até modelos de alto luxo. O segmento oferece oferta para todo tipo de consumidor.

Com a enxurrada de lançamentos, ele vai ficar congestionado?
AB – É difícil saber. É possível que, com a ampla oferta, a categoria atraia clientes de outros tipos de carro.

Qual a expectativa da Peugeot para o mercado nacional em 2006?
AB – Nos últimos cinco anos, nunca passamos um período tão positivo em termos de visibilidade de mercado. No final de 2005, projetávamos vendas de 1,7 milhão de modelos no Brasil. Mas, com o resultado dos primeiros meses, já falamos em 1,75 milhão. E acredito que, se este ritmo continuar, deveremos rever para 1,8 milhão ao longo do ano. O cenário começou positivo em 2006, acima de nossas expectativas.

Desde que se instalou no Brasil, a Peugeot já obteve lucro em suas operações?
AB – Ainda não. Mas, no ano passado, reduzimos bastante nosso prejuízo e, em 2006, a projeção é alcançar o equilíbrio financeiro.

Por que a Peugeot nunca alcançou lucro por aqui?
AB – Em 2001, na inauguração de nossa fábrica, houve grande desvalorização do Real. O prejuízo começou aí, porque nessa época o 206 não tinha alto índice de nacionalização. Pagamos o preço da desvalorização cambial. Só agora conseguimos equilibrar financeiramente esta crise.

O plano de reestruturação da Renault não prevê cortes, fechamento de fábricas, e sim ofensiva de novos produtos. A Peugeot vai seguir a mesma diretriz da rival?
AB – Cada marca tem sua estratégia. A Peugeot já tinha um plano de grandes investimentos e lançamentos para este ano, e continuará seguindo. Não chamamos de plano de reestruturação, simplesmente continuaremos seguindo nosso plano de investimentos, como já havia sido previsto.

Hoje, a Peugeot vende apenas a versão de entrada do 206 pela Internet. Há planos para expansão da oferta?
AB – As vendas pela internet estão acima de nossas expectativas. Mas eu acho que é muito mais uma questão de oferta do que de demanda. A internet virou mais um canal de vendas, como a rede de concessionários. E aí depende um pouco da estratégia da montadora. Se ela quer centralizar a oferta na internet ou na rede. Hoje, temos grande demanda é pela internet. Só não digo que é maior do que nas revendas porque oferecemos só uma versão na web.

Considerando apenas essa versão, qual é a porcentagem de vendas pela Internet?
AB – Na família 206 1.4, ela representa cerca de 35% das vendas. Na família 206 total, aproximadamente 20%.

Há planos de aumentar a oferta pela internet?
AB – Sim, temos um planejamento de oferecer carros importados de alta gama pela internet. Isso é uma coisa que deverá acontecer nos próximos meses. Assim, poderemos dar ao concessionário outra forma de comercializar este carro. Não seria uma venda exclusiva, e, sim, um novo canal.

Quando o 206 nacional foi lançado, ele trouxe visual moderno e caiu no gosto do brasileiro. O tempo passou, o modelo não mudou e agora há o 207 na Europa. Nosso carro ficou defasado. Podemos esperar novidades na linha?
AB – Nossas pesquisas apontam que o consumidor ainda vê o 206 como o carro mais moderno e atual do segmento. O 207 está em outro segmento, tanto que será comercializado, na Europa, ao lado do 206. O porte dele é praticamente de carro médio; ele não é compacto como o 206. Acredito que o consumidor brasileiro continuará a buscar no 206 a referência em termos de estilo e inovação no segmento.

Teremos o 206 Sedan?
AB – Isso ainda não é verdade.

Mas não é mentira também.
AB – Não. Nós estudamos o segmento dos sedãs compactos, que é pequeno, mas vem crescendo ano a ano.

A instalação do terceiro turno na fábrica de Porto Real é fruto da expansão de produto Peugeot ou Citroën?
AB – Ambos. É para atender o aumento de demanda que está acontecendo nas duas marcas, para os produtos atuais.

Está nos planos da Peugeot fazer um carro popular nos moldes do Fiat Mille, do Chevrolet Celta ou do futuro Renault Logan?
AB – A Peugeot não tem vocação para carros populares e empobrecidos, vamos dizer assim. Enfim, para modelos de acesso. Acho que isso fica bem claro para o consumidor. Nossa estratégia é entregar um modelo equipado, o mais da categoria, com modernidade tecnológica e conforto. Não vamos abrir mão disso, e não está nos nossos planos, pelo menos em curto e médio prazo, entrar em um segmento inferior.

Qual será a atração da Peugeot no Salão do Automóvel?
AB – Certamente, traremos carros conceito este ano. No último salão, houve muita procura pelo 907. Então, para esta edição, o protótipo é uma possibilidade forte. Fora alguns lançamentos, dos quais eu não vou falar.


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