Por trás desse semblante simpático, não poderíamos encontrar outra pessoa: Larry Wood, 67, é um dos homens mais privilegiados do mundo. Nascido em New England, Connecticut (EUA), Wood é o principal designer dos carrinhos da Hot Wheels, que conquistaram milhares de fãs em todo o mundo. Larry está no Brasil pela primeira vez para participar da 2ª Convenção Nacional Hot Wheels, que acontece neste final de semana, em São Paulo.
Wood descobriu o gosto por automóveis na adolescência e, em seguida, o talento para o design. Formou-se no Art Center College, um dos mais importantes dos Estados Unidos, e de lá foi direto para a Ford, onde teve sua primeira experiência profissional como designer. E foi o clima frio de Detroit que fez Wood encontrar o mundo das miniaturas. Larry não se adaptou à cidade e voltou para a Califórnia, onde soube, durante uma festa na casa de um amigo, que a Hot Wheels precisava de um profissional na área. E lá se foram quarenta anos.
Nesta sexta-feira (17), Wood nos recebeu gentilmente na sede da Mattel, empresa proprietária da marca Hot Wheels, em São Paulo, para contar um pouco mais dessa fascinante carreira. Entrou na sala e, naquele momento, sua serenidade já dizia tudo. Larry Wood é um homem feliz e realizado. Em conversa exclusiva com o Carsale, o designer contou sobre suas experiências, conquistas e outras paixões, como o rock and roll.
Quando começou sua paixão por carros?
Eu não me lembro de brincar com carrinhos quando eu era criança. Mas, quando eu tinha mais ou menos 14 anos, eu encontrei uma revista de carros e, então, descobri o quanto eu gostava dos automóveis. Este foi o começo. A partir daí, tudo o que eu desenhava era baseado no que via e lia nas revistas. Eu comecei a desenhar meus carros aos 15 anos.
E como o sr. decidiu se transformar em um designer?
Eu sempre desenhei carros na faculdade. A descoberta para o design aconteceu, novamente, por meio das revistas de carros, onde descobri a profissão. Até então eu nem imaginava que existiam profissionais que faziam este trabalho. Assim, eu disse: um dia eu quero ser um designer de carros de verdade. Mais tarde encontrei, na Califórnia, a Art Center College, onde comecei a minha formação como profissional da área.
Seu primeiro emprego foi na Ford, certo?
Exatamente. Eu trabalhava no design de pequenas partes do carro, como grade frontal, lanternas. Fiz isso durante dois anos e gostei bastante, mas na verdade não me adaptei ao clima da cidade. Detroit, você sabe... então, decidi voltar para a Califórnia.
Como o sr. começou na Hot Wheels?
Um amigo me convidou para uma festa na casa dele. Eu fui e, lá, algumas crianças brincavam com carrinhos. Perguntei que brinquedos eram aqueles e ele disse: “Isto é Hot Wheels”. Em seguida, completou “Eles estão procurando um designer”. Bom, eu já tinha uma experiência de dois anos na Ford, então arrisquei e consegui o emprego. Eu estava no lugar certo, na hora certa.
Quantos anos o sr. tinha na época?
24 anos.
Como é desenhar uma miniatura e um carro de verdade?
A principal diferença é que, cuidando apenas dos detalhes de um carro real, você precisa de anos para terminá-lo. No caso do Hot Wheels, você pode desenhar um carrinho em dois dias. O carrinho todo. E esta é a parte mais empolgante. Eu tenho muitas ideias, então ao invés de ter uma Ideia em dois anos, eu posso ter várias ideias durante o ano.
É possível contar quantos carrinhos o sr. já criou?
Não, não, são muitos! Talvez agora, que me aposentei, eu comece a contar (risos).
Se o sr. pudesse escolher os dois carros mais marcantes, quais seriam?
É difícil dizer. Você sempre lembra do seu primeiro carro, com certeza. O meu primeiro foi o ‘Tri-Baby’, era um carro esportivo. Um que gostei também, que fez a diferença, foi o Purple Passion. Foi o primeiro carrinho em que colocamos as rodas traseiras cobertas pela carroceria. Nos trilhos ele não vai muito bem, mas tem um belo visual, que atraiu muitos compradores. Criamos, então, duas linhas: uma para os colecionadores, com mais detalhes, rodas de borracha, e outra mais simples, de plástico, para as crianças.
Onde o sr. busca inspiração?
Ah, isso é fácil. Eu sempre acompanho os salões de automóveis, revistas de carros. Sempre viajei o mundo para observar os carros.
Há algum carro que o sr. já desejou transformar em miniatura, mas não fez?
Sim, provavelmente. Temos centenas de carros a nossa frente para selecionar apenas vinte para o próximo ano. E também depende da autorização das fabricantes, algumas dão, outras não. Então há carros que não podemos fazer.
Qual sua opinião sobre o design dos carros de hoje?
Na faculdade, aprendi que devia fazer carros bonitos. As pessoas querem carros bonitos. O problema é que com o aumento da produção todos os carros são iguais, todos querem comprar carros na cor prata, cinza. É por isso que eu gosto de Hot Wheels. Nós fazemos tudo diferente. Usamos cores, detalhes cromados, tentamos tornar os carrinhos atraentes. E é por isso também que gosto dos carros antigos, da década de 50, eles também eram diferentes.
Como é ter uma das profissões mais fascinantes do mundo?
É perfeito para mim. Eu tenho muita sorte. Durante toda a minha vida, trabalhei com o que eu queria. A maioria das pessoas vai ao trabalho, podem até gostar, mas trocam para outro sem nenhum problema. Eu sempre fiz o que desejava.

Se pudesse escolher outra profissão, qual seria?
Guitarrista, com certeza. Eu sempre quis, mas agora o tempo já passou demais...(risos)
Todos os seus sonhos foram realizados?
Eu acredito que sim. Estou muito feliz agora. Construo meus carros reais, é o que gosto de fazer agora. Posso ir para minha própria oficina e produzir meus próprios carros. Passei todos esses anos construindo carrinhos de brinquedo e agora desenhos automóveis reais. O problema é esperar cinco anos para que ele fique pronto...(risos). Eu moro na Califórnia, tenho minha própria oficina, como falei, e gosto de me divertir com meus brinquedos, meus hot rods. Ligo o rádio, coloco um rock and roll e me divirto com meus carros. Estou construindo um trailer grande, para viajar por aí. É isso que quero fazer a partir de agora.
O que o sr. diria aos jovens designers?
Primeiramente que eles precisam praticar muito o desenho. Sentir o que querem desenhar, saber se expressar, colocar as ideias no papel. Hoje, na era dos computadores, tudo é diferente. Eu não uso computador, prefiro o papel. Mas, com ou sem tecnologia, a ideia é a mesma. É preciso praticar, buscar conhecimento.
É sua primeira vez no Brasil e o sr. chegou em São Paulo há poucos dias. Qual foi a primeira impressão?
Há muitos carros (risos)! Ainda não tive tempo de conhecer a cidade, vou aproveitar os próximos dias para isso.